POR QUE SEU CANVAS PARECE UMA IMPRESSÃO BARATA DE LOJÃO

 Tentar esconder a alma do canvas sob uma camada lisa é um atestado de pusilanimidade técnica. A imperfeição não é um erro que pede perdão; é a única coisa que separa a vida da morte plástica industrial.

Fiquei preso, como um idiota da objetividade, na ideia de que o canvas precisava ser uma pintura "bem feita", lisinha, sem o menor ruído, como se a textura fosse um pecado carnal. Trabalhei camadas e mais camadas tentando esconder o que fugia do meu controle. O resultado? Uma peça com cara de impressão barata tentando imitar a pintura nobre, sem ser uma coisa nem outra. É a tragédia do simulacro. A limpeza excessiva assassina a materialidade e transforma o suporte num fantasma estéril. Cortei essa covardia pela raiz. Assumi a textura bruta, deixei o gesto gritar e misturei a técnica sem pedir licença aos mauricinhos do bom gosto. O quadro parou de fingir ser uma superfície perfeita e passou a existir na parede como um objeto de carne e osso. Quando você assume a textura e a ferida da sobreposição, a obra ganha uma profundidade que foge da estética de lojão que infesta o mundo. A presença de uma peça depende da sua capacidade de se impor pela matéria. Ao aceitar o ruído como linguagem, a peça assume uma autoridade que a máquina comum jamais poderá simular.

Muita gente se perde no desejo de eliminar o ruído natural do suporte, aplicando camadas lisas como uma máscara mortuária. O resultado é a perda da força física, uma peça com aparência de cópia anêmica. Para quem busca o valor real, a alternativa é explorar a textura bruta e o gesto técnico sem máscaras.

Se você busca um acabamento decorativo inofensivo e plano, continue escondendo a vida da técnica. Mas se você busca uma peça que se imponha pela sua própria carne material, assuma o gesto e a textura sem filtros.

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